Antoninho nasceu de sete meses.
Era tão franzino que por algum tempo foi preciso envolvê-lo em pastas de algodão.
Depois de alguns meses, ninguém mais o reconhecia.
Havia engordado, revelando um menino forte e de ótima saúde.
Sua mãe, necessitando do auxílio de uma ama, valeu-se dos conselhos das irmãs de São José, suas antigas mestras, que lhe indicaram uma pessoa nas condições de bem servi-lá.
Maria, a nova companheira de Antoninho, chamada de Mariama, para destinguir de outra Maria, empregada da casa, afeiçoou-se logo pela criança, tais os singulares atrativos que lhe ofereciam aquela alma ainda incompreendida.
Antoninho também simpatiou-se por Mariama, e com o passar dos anos, tornou-se seu amigo e protetor.
Muitos fatos advieram relacionados com a vida de Mariama que deixarei de me referir, exceto aos dois que mais interessam e conciliam com a natureza deste despretencioso trabalho.
Quando Antoninho fez sua primeira comunhão, antes de dirigir-se a igreja, chamou Mariama em particular e disse :
" Mariama, ficaria muito contente se você comungasse também, acompanhando-me neste dia de tanta felicidade! Papai, mamãe e todos que me querem bem estarão comigo no santo mistério, para receberem a graça que o corpo e o sague de Jesus Cristo nos ofertam."
Falta só uma pessoa que tanto estimo : "Você"
Depois dessas palavras cheias de sinceridade, provindas dos íntimos refolhos de uma alma inocente e piedosa, o coração de Mariama abriu-se amplamente e os seus olhos puderam derramar as mais justas lágrimas de toda sua vida.
Ele então continuou :
" Você sabe que Antoninho é de Jesus! É preciso que você também o seja, é tão fácil."
Não podendo Mariama, naquela ocasião, receber o meigo corpo de Jesus que o divino mistério nos oferece, abraçou e beijou o bom previdente Antoninho, prometendo-lhe faze-lo assim que estivesse preparada para contemplar o filho de Deus vivo e recebê-lo com o seu mais puro amor.
Durante o ato solene em que, cheio de bondade e pureza, Antoninho mais parecia um anjo, ela tomada de forte comoção, desfalecia. Naquele dia Mariama passou muito triste e pensativa. A cada instante punha-se a chorar.
Sua lágrimas eram gotas preciosas que a prece de Antoninho fizera orvalhar no seu coração resequido!
Era finalmente, a realização do milagre de uma conversão sincera !
Mariama certificara-se mais uma vez de que Antoninho pertencia a Jesus e que vivia de Jesus!
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Antoninho e Mariama, em 1926 |
Jamais se lhe cancelaram da memória aquelas santas palavras :
"Papai, mamãe e todos que me querem bem estarão comigo no santo mistério para receberem a graça que o corpo e o sangue de Jesus Cristo nos oferecem!"
"FALTA SÓ UMA PESSOA QUE TANTO ESTIMO: VOCÊ"
Morrera Antoninho!
Mariama não suportou por muitos anos essa separação.
Uma noite, quando se achava em tratamento no hospital Humberto Primo, sonhou pela primeira vez com ele.
Dialogaram
- Mariama, vim fazer-lhe uma visita.
- Antoninho, que saudades de você.
- Você Mariama, está muito doente. Essta dor que você sente, eu vou explicar, é como um rio que vai seavolumando até transbordar, formando num mar imenso.
E ao mesmo tempo que dizia isso, apontava-lhe um filête d'água que aos poucos ia crescendo e se espraiando em extenso lençol, até transformar-se em um mar!
- Você Mariama, tem que atravessar esse mar...
- Como? Mais eu afundo!
- Não afunda, esse é um mar de sofrimento que você vai atravessar. Eu estarei na praia e você me carregará. É preciso muita resignação e grande firmeza de ánimo. Mariama, eu virei lhe buscar, você vai morrer no dia 13 de junho, num dia lindo, dia do meu santo! Chame a X... Ela tomará nota de tudo, reparta o que tiver entre os seus, para que não haja briga depois. Traga dois lírios para Santo Antônio e dois para mim. Estou contentíssimo, porque você tem se confessado e comungado.
Mariama estava bem doente, mas ainda ignorava o seu verdadeiro estado.
Recebendo a visita da mãe de Antoninho, com a qual mantinha a mesma afetividade, apressou-se em narrar-lhe o extraordinário sonho.
Ouvindo depois as palavras consoladoras da boa amiga, disse-lhe que procuraria outra casa de saúde, e transferiu-se para o sanatório Santa Catarina e dai para a Santa Casa de Misericórdia.
Nesse hospital, a mãe de Antoninho tivera ensêjo de relatar às religiosas que haviam assistido ao seu filho, o caso do sonho premonitório, sabendo depois que o estado de Mariama, embora gravíssimo e fatal, ainda se prolongaria, não sendo de esperar-se um breve desfecho.
Desejando a ex-ama de Antoninho voltar para junto da família, deixou o hospital das Irmãs de São José.
No dia 12 de junho passara relativamente bem, pelo que ninguém esperava um pronto desenlace: pediu umsacerdote recebendo os últimos sacramentos, o que causou estranheza.
Achava-se assim espiritualmente preparada e esperava tranquilamente sua hora.
Sentindo-se mal, Mariama, que recebera de Antoninho como presente uma igrejinha por ele recordata e construida, sob condição de que a entregaria à sua mãe antes de morrer, fez a devolução do lindo trabalho que lhe representava a mais doce advertência de Antoninho, que lhe havia dito ao entregá-la :
"Mariama, é só na igreja que você se lembrará do que lhe tenho recomendado sempre."
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Igreja recortada e armada por antoninho, dias antes de falecer e entregue à sua ama.
"Mariama, é só na igreja que você se lembrará do que lhe tenho recomendado sempre." |
No dia seguinte pela manhã entrou em agonia.
Reconheceu os pais de Antoninho, e sesse momento entraram pessoas amigas trazendo uma das quais, alguns lírios que, como sabemos, dificilmente é encontrado no mês de junho.
Assim, santamente, com a alma voltada para Deus, morria MARIAMA no dia 13 de junho, conforme Antoninho lhe dissera em sonho, à hora em que os sinos anunciavam a Benção do Santíssimo.
Agradecimentos : Padre Olegário Barata
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